Hoje, cada um de vocês veio a este lugar trazendo seus próprios sentimentos e circunstâncias, reunindo-se para lembrar de pessoas tão importantes. Unir as mãos suavemente em direção a alguém que não podemos ver. Ouvir em silêncio o som dos sutras. Às vezes, de repente, não nos pegamos pensando: “Qual será o verdadeiro sentido desse gesto?” Na verdade, é exatamente nesta forma que vocês estão praticando agora que se esconde a sabedoria mais profunda do budismo.
Costumamos pensar que só depois que o nosso coração estiver completamente limpo, ou depois que entendermos tudo, é que passaremos a viver de forma tranquila como o Buda. Porém, quem alcança a verdadeira paz faz o inverso. Mesmo que as mãos estejam cheias de incertezas e dúvidas, primeiro a gente experimenta “imitar o Buda”. Entregar-se ao som dos sutras que vêm sendo cantados desde tempos muito antigos, entrar por inteiro no silêncio do templo e unir as mãos com carinho. Ao entrar primeiro nessa forma sagrada, o nosso coração, que antes estava agitado, vai sendo resgatado e acalmo logo em seguida.
O nosso corpo é feito daquilo que comemos, mas o nosso coração é construído pelas palavras que ouvimos com os ouvidos e por aquelas que pensamos dentro do peito. Quando o coração está seco, acabamos calculando apenas o momento presente: “Será que vou perder algo agora?”, “O quanto posso me poupar?”. Mas escolher um dia a dia de qualquer jeito, pensando que “assim já está bom”, destrói o nosso coração sem que a gente perceba, nos afastando da verdadeira paz.
É muito difícil criar do zero, apenas dentro da nossa cabeça, um mundo de tranquilidade que a gente ainda não conhece. Por isso, mudando só um pouquinho o ponto de vista, tentamos escolher primeiro os ensinamentos do Buda nas pequenas decisões do dia a dia. Experimentamos seguir os seus passos. Em vez de olhar “o quanto vou ganhar”, tentamos escolher o valor invisível: “Qual o tamanho da paz que este gesto trará para o meu coração?”. Escolher uma refeição, um encontro, e as palavras doces que acalmam alguém. Não é uma falsidade para tentar parecer bom. É, na verdade, um molde muito importante para deixar o calor acolhedor do Buda, que já existe ali, se espalhar e colar no nosso próprio coração. Essa repetição, mesmo que de pouquinho em pouquinho, um dia transforma as nossas palavras, muda o nosso modo de ver as coisas e renova a nossa própria maneira de viver.
No Sutra de Amida, é dito que na Terra Pura “existe tudo”. Por outro lado, também se ensina que o mundo da iluminação é um “mundo onde não existe nada”. Ter tudo e, ao mesmo tempo, não ter nada. Isso não é uma contradição sem resposta. Hoje, quando vocês pensaram em quem partiu, deixando de lado os ganhos imediatos e os apegos para unir as mãos em silêncio… uma “sala silenciosa e vazia” se abriu no fundo do coração de cada um de vocês. E é exatamente nessa sala vazia que a compaixão infinita do Buda entra e transborda por completo. Sem olhar para preços ou vantagens, experimentamos apenas nos entregar a essa realidade silenciosa. O fato de vocês estarem aqui hoje por causa de alguém importante, unindo as mãos neste momento, é a prova e a entrada mais segura para uma vida de paz, guardada por essa imensa força que chamamos de Buda.